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I. Histórico
Sem fundador e sem credo específico, o Hinduísmo
é uma das religiões mais antigas do mundo.
Surgiu aproximadamente no ano 1500 a.C., quando um complexo
de crenças transmitidas oralmente pelos árias
(povos que invadiram a Índia por volta de 2000
a 1500 a.C.) deu origem aos Vedas (a literatura sagrada
hindu), que por sua vez originou um complexo de sampradaias
(seitas). A adoração era centrada nas
forças da natureza.
Foram os europeus que designaram a tradição
religiosa da Índia de “hinduísmo”,
por volta do século XV. Os hindus, porém,
referem-se à sua fé como sanatana dharma,
que significa lei ou ensinamentos eternos, isto é,
aquilo que não tem começo nem fim.
A filosofia hindu é tolerante com todas as formas
de expressão religiosa, reconhecendo que todas
conduzem à mesma “verdade”, por mais
contraditórias que sejam. Isso se dá devido
ao seu caráter sincretista, que absorve prontamente
os elementos de qualquer credo com o qual entra em contato.
Para os hindus pouco importa a diversidade antagônica
e a ausência de lógica em sua filosofia;
sua preocupação não está
voltada para a forma de pensar, e sim, para sua maneira
de viver, já que a vida é um ciclo que
se repete continuamente (reencarnação).
Há aproximadamente 700 milhões de hindus
no mundo, estando a maioria concentrada na Índia.
II. Escrituras
A literatura hindu deve ser dividida de acordo com
os diversos estágios de sua religião.
O primeiro estágio é o Védico
(2000 a.C.-1000 a.C.). Os Vedas (sabedoria, conhecimento)
são os principais livros desse período.
Foram completados por volta de 1000 a.C. Escritos originalmente
em sânscrito, compreendem quatro obras: Rig Veda
(Salmos dos Conhecimentos — é formado por
1028 hinos dirigidos a vários deuses), Yajur
Veda (Conhecimento das Fórmulas Sagradas), Sama
Veda (Sabedoria dos Hinos, das Melodias) e Atharva Veda
(Conhecimento da Magia, dos Encantamentos). Nessa literatura
não há menção de vida após
a morte. A idéia de reencarnação
surgiria no segundo estágio.
O segundo estágio, o Bramânico –
também conhecido como Bramanismo (1000 a.C.-800
a.C.) fez surgir outro grupo de literatura, a saber,
os Brahmanas (Sacerdotes). Tendo seu poder fortalecido
pela necessidade contínua de sacrifício
aos deuses, os brâmanes (sacerdotes) produziram
tal literatura contendo instruções sobre
os diversos sacrifícios, tanto domésticos
como públicos. Contêm também lendas
e instruções sobre a vida religiosa. Por
meio de tais obras, os sacerdotes hindus apontaram os
sacrifícios por eles realizados como a maneira
para se obter a salvação. Exigiam pagamento
pela realização dos rituais. Nessa literatura
surgiram idéias como a transmigração
da alma (reencarnação), a proibição
de se comer carne bovina e a institucionalização
das castas (sistema que dividia a sociedade indiana
em vários grupos sociais, sendo os brâmanes
a classe primaz).
O terceiro estágio denomina-se Hinduísmo
Filosófico (800 a.C.–300 d.C.). Surgem
os Upanishades (significando: assentado abaixo [dum
mestre]), também conhecidos como Vedanta (significando:
fim dos Vedas), cuja temática girava em torno
da realidade humana, sua origem e seu destino. Desprezando
os sacrifícios, salientavam que a salvação
seria obtida através do discernimento espiritual,
partindo da ação do próprio indivíduo.
Outras obras foram: Sutras (Linhas) — coletâneas
que enfatizavam ensinamentos dos Vedas e dos Upanishades;
Livro de Manu — repleto de preceitos morais, alguns
semelhantes ao do Cristianismo, o livro aponta a salvação
através da observância das leis védicas,
enfatizando o sistema de castas; Ramayana (A Trilha
do Deus Rama) — conta a história da sétima
encarnação de Vishnu, Rama, que é
destituído de seu reino, tem sua esposa raptada;
depois, ajudado por Hanuman, o deus-macaco, liberta
sua esposa; o Mahabharata (A Grande Guerra dos Bharatas)
— tem como ponto máximo a seção
intitulada Bhagavad-Gita [Canto Celestial], que mostra
o diálogo entre Krishna e seu amigo e devoto
Arjuna, questionando se seria antiético matar
seus amigos e parentes na guerra e os Puranas (histórias
antigas que complementam os Vedas), que formam uma coleção
de relatos religiosos.
III. Deus
Definir a concepção de Deus no Hinduísmo
é tarefa complexa. Brahman é o deus supremo,
porém, impessoal (embora às vezes seja
adorado como um deus pessoal). Ele é o absoluto,
contendo em si mesmo todo o universo. Ele é a
origem, a causa e a base de toda a existência.
Apesar de se calcular em mais de trezentos milhões
o número de deuses no Hinduísmo, nega-se
o politeísmo, pois todo esse panteão divino
aponta para as diversas manifestações
de Brahman, que é um só. Assim, um hindu
pode adorar um ou mais deuses, sabendo, porém,
que se trata do mesmo princípio ou essência.
Dessas manifestações bramânicas,
a Trimurti (a tríade hindu) é a que mais
se destaca, sendo composta por Brahma (o Criador), Vishnu
(o Preservador) e Shiva (o Destruidor). Detalhe: Todos
são casados.
IV. Jesus Cristo
Não há posição oficial
acerca de Jesus Cristo. Alguns hindus vêem-no
como um sadhu, ou seja, um homem santo, ou um guru (guia
espiritual). Poderia ter sido um avatar. (Ver Bhagavad-Gita
11.55).
V. Espírito Santo
Não faz parte do corpo doutrinário hindu.
VI. Salvação
Alcançar a moksa (salvação, libertação)
é a suprema meta do hindu. A alma está
presa ao corpo no mundo material. As ações
do homem (karma) tornam-no responsável por seu
próprio destino. Seus erros deverão ser
expiados numa série de reencarnações
(samsara). Certas regras e práticas são
indispensáveis para libertar a alma do samsara.
O caminho que pode levar o hindu à moksa é
conhecido como marga ou yoga, que significa junção,
fusão, ou seja, o indivíduo funde-se com
o Absoluto Universal (Brahma). Há vários
tipos de yoga, independentes entre si, cabendo ao devoto
escolher a que melhor lhe convém. As principais
são:
· Janana-yoga (caminho do conhecimento)
– é o método onde o que predomina
é a atividade intelectual, empírica (exercício
mental). Sua função é levar o indivíduo
a perceber que a alma espiritual (o verdadeiro “eu)
não é parte do mundo material, mas sim,
da suprema totalidade espiritual (Brahman).
· Bhakti-yoga (caminho da devoção)
– é o método que leva o indivíduo
a devotar-se ao deus (manifestação de
Brahman) de sua escolha (exercício espiritual
e emocional). O que predomina neste método é
a emoção. Qualquer casta pode seguir este
caminho, que é o mais popular do Hinduísmo.
Contrapõe-se às práticas ascéticas
do método janana.
· Karma-yoga (caminho da ação)
– é o método que indica quais ações
(karma) o indivíduo deverá efetuar no
seu dia a dia (exercício físico). Suas
ações são determinadas pela casta
a que pertence. Assim, à medida em que realiza
o dharma, ou seja, cada coisa comum à sua casta,
o indivíduo estará cumprindo a lei eterna
de todas as coisas (sanatana dharma).
VII. Morte
É a transição efetuada pela alma
de um corpo para outro. Declara o Bhagavad-Gita: “Assim
como, neste corpo, a alma corporificada seguidamente
passa da infância à juventude e à
velhice, do mesmo modo, chegando a morte, a alma passa
para outro corpo”. O ciclo de nascimento e renascimento
termina quando o indivíduo alcança a moksa.
VIII. Informações adicionais
· Apesar de proibido pelo governo indiano
desde o final da década de 1940, a sociedade
indiana continua dividida em castas ou varnas (cores).
Baseada na mitologia hindu, crê-se que as pessoas
estão divididas em quatro grupos distintos: os
brâmanes (sacerdotes), shatrias (governantes e
guerreiros), vaixás (lavradores, artesãos)
e os sudras (trabalhadores), a classe inferior, que
tem como função servir as classes anteriores.
Cada classe está dividida em centenas de outras
(calculam-se mais de 6.000 subcastas). Outros não
têm casta: são os “párias”
(intocáveis). É o racismo institucionalizado
pela sociedade. Por acreditarem que faz parte da lei
eterna (sanatana dharma), milhões de hindus se
conformam com essa situação. Muitos tentaram
eliminá-lo, como foi o caso de Mahatma Gandhi
(1869–1948).
· O rio Ganges (também conhecido
como Ma Gangá [Mãe Gangá]) é
adorado, pois a água simboliza vida interminável.
Crêem que dele procede a purificação
dos males físicos e espirituais. O fiel hindu
deverá banhar-se em suas águas pelo menos
uma vez na vida. Muitos bebem de sua água poluída,
que também recebe cinzas de cadáveres
cremados, ou simplesmente enrolados em panos, além
de esgotos etc.
· A vaca é considerada sagrada no
Hinduísmo. No Atharva Veda há poemas que
prestam honras a esse animal. Por vezes, Krishna é
representado como pastor de vacas, daí a importância
que elas têm para os hindus, que usam sua urina
(considera sagrada) em seus rituais de purificação).
Alimentar vacas é um dever sagrado para os adeptos
do Hinduísmo.
IX. Vocabulário
· Ahimsa – não-violência.
· Ananda – felicidade espiritual.
· Ashram – santuário usado
por um guru para ensinar.
· Atman – a alma individual (espírito),
o eu. Pode referir-se também ao corpo (matéria),
à mente, ao intelecto ou ao Eu Supremo (Brahma).
· Avatar [a]– literalmente: “descendente”.
Reencarnação (parcial ou total) de um
deus, que vem com uma missão específica.
· Bhakta – devoto.
· Bhakti – serviço devocional
ao deus Brahma, através de uma de suas milhares
de manifestações.
· Deva – pessoa divina, semideus.
· Dhyana – meditação.
· Guru – guia ou mestre espiritual.
· Jiva – a alma individual eterna.
· Maya – literalmente: ilusão.
É a condição na qual a matéria
infecciona a vida espiritual, fazendo-a esquecer sua
natureza espiritual e Deus. É a parte negativa
da energia de Brahma.
· Mahatmã – “grande
alma”; figura preeminente.
· Mantra – hino devocional, repetitivo,
dirigido a um deus.
· OM – sílaba sagrada que
simboliza Brahma, o Absoluto. É recitado como
hino devocional (mantra). Geralmente é empregada
durante as meditações.
· Prema – devoção espontânea
ao Deus Supremo.
· Swami – mestre espiritual de categoria
mais elevada.
· Vikarma – atitude pecaminosa.
· Yajnana – sacrifício. |